Boa Tarde Sr. Provedor
Sou leitor assíduo do jornal Público pois acho que nas suas várias formas de mostrar a realidade informativa usa uma profundidade e uma forma, na minha opinião, quase literária que aborda a notícia. A notícia é e deverá ser sempre a base de qualquer jornal, seja ele diário, semanário, etc. Neste sentido a minha perplexidade surge quando não encontro no jornal referências a certos acontecimentos que na minha opinião têm razão de virem referidos e tratados no jornal. E concretamente posso referir que reiteradamente desde que o jornal mudou a sua apresentação gráfica deixou de referir certos jogos de futebol que se realizam quer à 6a quer à 2a. Estes jogos têm uma base que é comum, isto é, são sempre entre equipas onde não estão o Porto, Benfica e Sporting. Posso referir como exemplo o dia de hoje em que se vai realizar a meia final da Taça da Liga entre o Gil Vicente e o Sporting de Braga e qual não é o meu espanto quando nem na versão em papel quer online não surge referência a este jogo nos moldes que o Público tem por hábito fazer noutros casos semelhantes. Questiono este casos já que me parece que isto apenas se iniciou com a mudança gráfica do jornal e nesse sentido como não vi nenhuma referência a uma mudança na linha editorial do jornal pergunto-me e pergunto ao Provedor se acha normal este tipo de sonegação de informação já se trata de uma semifinal de uma competição nacional de futebol ou se agora a linha editorial do Público apenas acha como plausível de ser noticiado os jogos dos chamados três grandes. Neste sentido acho ser importante clarificar de modo a que os leitores do Público possam ter quer noção do que norteia as escolhas do jornal e por outro lado clarificar de modo sistemático a razão de ser das mesma escolhas.
(Crónica da edição de 25 de Março de 2012)
Terça-feira, 20. Benfica e FC Porto disputam uma das meias-finais da Taça da Liga. O PÚBLICO dedica duas páginas à antecipação do encontro. Plantéis prováveis, estatísticas, declarações dos treinadores, a alimentar o interesse dos que não dispensam o espaço que o jornal dedica ao futebol.
Quarta-feira, 21. Ganhou o Benfica. Os leitores que gostam de futebol já o sabem, mas querem conhecer o olhar dos jornalistas sobre as incidências do jogo, ver ou rever as declarações dos protagonistas, ponderar a análise crítica dos especialistas. Duas páginas inteiras e a fotografia principal da capa.
Quinta-feira, 22. Falta saber quem será o outro finalista da competição. A resposta será dada em Barcelos, onde o Gil Vicente recebe o Sporting de Braga na segunda meia-final. Nem uma linha no jornal. Quem não souber que nessa data se conhecerá o adversário do Benfica na final não o ficará a saber pelas páginas de Desporto do PÚBLICO.
Sexta-feira, 23. Ganharam os de Barcelos. Será a primeira final do Gil Vicente numa competição nacional. Feito inédito, portanto. O jogo não foi banal, teve reviravolta nos últimos minutos e foi decidido com recurso a grandes penalidades. Quem não o viu encontrou no jornal um curto relato — nada de reacções, nada de análise crítica — paginado a duas colunas na segunda página do Desporto (a primeira era dedicada a um jogador do Benfica). Na capa, nem uma referência.
A desigualdade de tratamento entre as duas meias-finais disputadas esta semana foi gritante. A diferença de peso — em currículo, recursos, adeptos — entre os clubes envolvidos em cada um dos jogos não pode justificá-la. Tratava-se de embates com idêntica importância para o apuramento dos finalistas de uma competição nacional.
O leitor Miguel Ângelo de Almeida criticou, com razão, o critério editorial seguido. Especialmente no jornal de quinta-feira. Declara o seu “espanto” por não ter encontrado, “nem na versão em papel nem online”, qualquer “referência”, ” nos moldes que o Público tem por hábito fazer”, à disputa, nesse dia, “da meia-final da Taça da Liga entre o Gil Vicente e o Sporting de Braga”.
Alarga a crítica e situa-a no âmbito da recente mudança gráfica do PÚBLICO, queixando-se de que o jornal “deixou de referir certos jogos de futebol que se realizam quer à sexta-feira quer à segunda-feira”, quando entre as equipas que os disputam “não estão o Porto, Benfica e Sporting”. Fala de “sonegação de informação” e questiona se o PÚBLICO considera aceitável essa discriminação positiva “dos chamados três grandes”. Pede que seja clarificada a orientação do jornal nesta matéria.
A essa questão responde Jorge Miguel Matias, editor do Desporto, informando que, “de facto, a alteração gráfica do jornal obriga os diferentes editores a apostar em determinados temas em detrimento de outros”, com a intenção de que “o jornal desenvolva com mais profundidade dois ou três temas por dia, em vez de oferecer uma multiplicidade de assuntos tratados muitas vezes de forma ligeira, em notícias com uma dimensão média ou reduzida”. Trata-se pois de uma alteração de fundo, a que valerá pena voltar em outra ocasião, já que os critérios de selecção temática resultantes do novo figurino editorial e gráfico têm levado alguns leitores a colocar dúvidas ou objecções que merecem ser analisadas.
Ficando hoje pelo Desporto, devo salientar que o editor não inscreve no âmbito dessa alteração o caso da omissão noticiosa do jogo de Barcelos, acerca do qual reconhece que “a não publicação de nenhuma informação (no papel e no online) foi um erro de edição”, pelo qual apresenta desculpas aos leitores. “A secção de Desporto”, escreve, ” deveria ter publicado alguma informação, mesmo que pequena”, pois “tratava-se de uma meia-final de uma competição oficial e, portanto, a relevância era inequívoca”.
Afirmando que se mantém “a política de não limitar o acompanhamento noticioso aos chamados três grandes”, Jorge Miguel Matias alega que “prova disso mesmo é o facto de, precisamente pelo facto de o Sp. Braga estar na luta pelo título de campeão nacional, termos passado a publicar um texto de antecipação dos seus jogos”.
É compreensível que motivos de relevância e audiência levem o PÚBLICO, como aliás toda a imprensa, a privilegiar o espaço concedido aos jogos e às notícias dos maiores clubes. Mas não é aceitável — qualquer que seja o modelo gráfico ou o espaço disponível — que essa diferença ultrapasse os limites exigidos pela isenção no acompanhamento de competições nas quais todos os participantes estão, à partida, em situação de igualdade formal. E muito menos que o desequilíbrio possa chegar a assumir a forma de omissão. Sendo isto válido para qualquer das edições do jornal, é de esperar que o esforço por uma abordagem mais equilibrada seja maior no Público Online, em que não existem os constrangimentos de espaço próprios da edição impressa.
O PÚBLICO não deve esquecer que têm leitores em todo o país e que se contam entre eles adeptos de clubes como o Sporting de Braga ou o Gil Vicente. Que existem ainda os que se interessam por futebol à margem das paixões clubísticas. E que os últimos anos têm mostrado que a tríade dos “grandes” não está fixada para a eternidade.
José Queirós