quarta-feira, 28 de março de 2012

"Jogo desequilibrado" (Crónica do Provedor do Leitor do Jornal Público respondendo a uma critica minha)



Boa Tarde Sr. Provedor

Sou leitor assíduo do jornal Público pois acho que nas suas várias formas de mostrar a realidade informativa usa uma profundidade e uma forma, na minha opinião, quase literária que aborda a notícia. A notícia é e deverá ser sempre a base de qualquer jornal, seja ele diário, semanário, etc. Neste sentido a minha perplexidade surge quando não encontro no jornal referências a certos acontecimentos  que na minha opinião têm razão de virem referidos e tratados no jornal. E concretamente posso referir que reiteradamente desde que o jornal mudou a sua apresentação gráfica deixou de referir certos jogos de futebol que se realizam quer à 6a quer à 2a. Estes jogos têm uma base que é comum, isto é, são sempre entre equipas onde não estão o Porto, Benfica e Sporting. Posso referir como exemplo o dia de hoje em que se vai realizar a meia final da Taça da Liga entre o Gil Vicente e o Sporting de Braga e qual não é o meu espanto quando nem na versão em papel quer online não surge referência a este jogo nos moldes que o Público tem por hábito fazer noutros casos semelhantes. Questiono este casos já que me parece que isto apenas se iniciou com a mudança gráfica do jornal e nesse sentido como não vi nenhuma referência a uma mudança na linha editorial do jornal pergunto-me e pergunto ao Provedor se acha normal este tipo de sonegação de informação já se trata de uma semifinal de uma competição nacional de futebol ou se agora a linha editorial do Público apenas acha como plausível de ser noticiado os jogos dos chamados três grandes. Neste sentido acho ser importante clarificar de modo a que os leitores do Público possam ter quer noção do que norteia as escolhas do jornal e por outro lado clarificar de modo sistemático a razão de ser das mesma escolhas.

Cumprimentos e obrigado




 (Cró­nica da edi­ção de 25 de Março de 2012)
Terça-feira, 20. Ben­fica e FC Porto dis­pu­tam uma das meias-finais da Taça da Liga. O PÚBLICO dedica duas pági­nas à ante­ci­pa­ção do encon­tro. Plan­téis pro­vá­veis, esta­tís­ti­cas, decla­ra­ções dos trei­na­do­res, a ali­men­tar o inte­resse dos que não dis­pen­sam o espaço que o jor­nal dedica ao futebol.
Quarta-feira, 21. Ganhou o Ben­fica. Os lei­to­res que gos­tam de fute­bol já o sabem, mas que­rem conhe­cer o olhar dos jor­na­lis­tas sobre as inci­dên­cias do jogo, ver ou rever as decla­ra­ções dos pro­ta­go­nis­tas, pon­de­rar a aná­lise crí­tica dos espe­ci­a­lis­tas. Duas pági­nas intei­ras e a foto­gra­fia prin­ci­pal da capa.
Quinta-feira, 22. Falta saber quem será o outro fina­lista da com­pe­ti­ção. A res­posta será dada em Bar­ce­los, onde o Gil Vicente recebe o Spor­ting de Braga na segunda meia-final. Nem uma linha no jor­nal. Quem não sou­ber que nessa data se conhe­cerá o adver­sá­rio do Ben­fica na final não o ficará a saber pelas pági­nas de Des­porto do PÚBLICO.
Sexta-feira, 23. Ganha­ram os de Bar­ce­los. Será a pri­meira final do Gil Vicente numa com­pe­ti­ção naci­o­nal. Feito iné­dito, por­tanto. O jogo não foi banal, teve revi­ra­volta nos últi­mos minu­tos e foi deci­dido com recurso a gran­des pena­li­da­des. Quem não o viu encon­trou no jor­nal um curto relato — nada de reac­ções, nada de aná­lise crí­tica — pagi­nado a duas colu­nas na segunda página do Des­porto (a pri­meira era dedi­cada a um joga­dor do Ben­fica). Na capa, nem uma referência.
A desi­gual­dade de tra­ta­mento entre as duas meias-finais dis­pu­ta­das esta semana foi gri­tante. A dife­rença de peso — em cur­rí­culo, recur­sos, adep­tos — entre os clu­bes envol­vi­dos em cada um dos jogos não pode justificá-la. Tratava-se de emba­tes com idên­tica impor­tân­cia para o apu­ra­mento dos fina­lis­tas de uma com­pe­ti­ção nacional.
O lei­tor Miguel Ângelo de Almeida cri­ti­cou, com razão, o cri­té­rio edi­to­rial seguido. Espe­ci­al­mente no jor­nal de quinta-feira. Declara o seu “espanto” por não ter encon­trado, “nem na ver­são em papel nem online”, qual­quer “refe­rên­cia”, ” nos mol­des que o Público tem por hábito fazer”, à dis­puta, nesse dia, “da meia-final da Taça da Liga entre o Gil Vicente e o Spor­ting de Braga”.
Alarga a crí­tica e situa-a no âmbito da recente mudança grá­fica do PÚBLICO, queixando-se de que o jor­nal “dei­xou de refe­rir cer­tos jogos de fute­bol que se rea­li­zam quer à sexta-feira quer à segunda-feira”, quando entre as equi­pas que os dis­pu­tam “não estão o Porto, Ben­fica e Spor­ting”. Fala de “sone­ga­ção de infor­ma­ção” e ques­ti­ona se o PÚBLICO con­si­dera acei­tá­vel essa dis­cri­mi­na­ção posi­tiva “dos cha­ma­dos três gran­des”. Pede que seja cla­ri­fi­cada a ori­en­ta­ção do jor­nal nesta matéria.
A essa ques­tão res­ponde Jorge Miguel Matias, edi­tor do Des­porto, infor­mando que, “de facto, a alte­ra­ção grá­fica do jor­nal obriga os dife­ren­tes edi­to­res a apos­tar em deter­mi­na­dos temas em detri­mento de outros”, com a inten­ção de que “o jor­nal desen­volva com mais pro­fun­di­dade dois ou três temas por dia, em vez de ofe­re­cer uma mul­ti­pli­ci­dade de assun­tos tra­ta­dos mui­tas vezes de forma ligeira, em notí­cias com uma dimen­são média ou redu­zida”. Trata-se pois de uma alte­ra­ção de fundo, a que valerá pena vol­tar em outra oca­sião, já que os cri­té­rios de selec­ção temá­tica resul­tan­tes do novo figu­rino edi­to­rial e grá­fico têm levado alguns lei­to­res a colo­car dúvi­das ou objec­ções que mere­cem ser analisadas.
Ficando hoje pelo Des­porto, devo sali­en­tar que o edi­tor não ins­creve no âmbito dessa alte­ra­ção o caso da omis­são noti­ci­osa do jogo de Bar­ce­los, acerca do qual reco­nhece que “a não publi­ca­ção de nenhuma infor­ma­ção (no papel e no online) foi um erro de edi­ção”, pelo qual apre­senta des­cul­pas aos lei­to­res. “A sec­ção de Des­porto”, escreve, ” deve­ria ter publi­cado alguma infor­ma­ção, mesmo que pequena”, pois “tratava-se de uma meia-final de uma com­pe­ti­ção ofi­cial e, por­tanto, a rele­vân­cia era inequívoca”.
Afir­mando que se man­tém “a polí­tica de não limi­tar o acom­pa­nha­mento noti­ci­oso aos cha­ma­dos três gran­des”, Jorge Miguel Matias alega que “prova disso mesmo é o facto de, pre­ci­sa­mente pelo facto de o Sp. Braga estar na luta pelo título de cam­peão naci­o­nal, ter­mos pas­sado a publi­car um texto de ante­ci­pa­ção dos seus jogos”.
É com­pre­en­sí­vel que moti­vos de rele­vân­cia e audi­ên­cia levem o PÚBLICO, como aliás toda a imprensa, a pri­vi­le­giar o espaço con­ce­dido aos jogos e às notí­cias dos mai­o­res clu­bes. Mas não é acei­tá­vel — qual­quer que seja o modelo grá­fico ou o espaço dis­po­ní­vel — que essa dife­rença ultra­passe os limi­tes exi­gi­dos pela isen­ção no acom­pa­nha­mento de com­pe­ti­ções nas quais todos os par­ti­ci­pan­tes estão, à par­tida, em situ­a­ção de igual­dade for­mal. E muito menos que o dese­qui­lí­brio possa che­gar a assu­mir a forma de omis­são. Sendo isto válido para qual­quer das edi­ções do jor­nal, é de espe­rar que o esforço por uma abor­da­gem mais equi­li­brada seja maior no Público Online, em que não exis­tem os cons­tran­gi­men­tos de espaço pró­prios da edi­ção impressa.
PÚBLICO não deve esque­cer que têm lei­to­res em todo o país e que se con­tam entre eles adep­tos de clu­bes como o Spor­ting de Braga ou o Gil Vicente. Que exis­tem ainda os que se inte­res­sam por fute­bol à mar­gem das pai­xões clu­bís­ti­cas. E que os últi­mos anos têm mos­trado que a tríade dos “gran­des” não está fixada para a eternidade.

José Quei­rós

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