sexta-feira, 30 de setembro de 2011

"Memórias Póstumas de Brás Cubas" de Machado de Assis



Análise da obra

É a obra inaugural da fase realista de Machado de Assis, representando uma verdadeira revolução de idéias e formas: de idéias, porque aprofunda o desprezo pelas idealizações românticas, fazendo emergir a consciência nua do indivíduo, fraco e incoerente; de formas, pela ruptura com a linearidade da narrativa e pelo estilo "enxuto". É também obra inaugural do romance psicológico no Brasil.

É a partir de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) que Machado de Assis atinge o ponto mais alto e equilibrado da ficção brasileira.

É o drama da irremediável tolice humana. São as memórias de um homem igual a tantos outros, o cauto e desfrutador Brás Cubas, que tudo tentou e nada deixou. A vida moral e afetiva é superada pela existência biologicamente satisfeita, e as personagens se acomodam cinicamente ao erro.

Estrutura da obra

A estrutura de Memórias Póstumas de Brás Cubas tem uma lógica narrativa surpreendente e inovadora. A seqüência do livro não é determinada pela cronologia dos fatos, mas pelo encadeamento das reflexões do personagem. Uma lembrança puxa a outra e o narrador Brás Cubas, que prometera contar uma determinada história, comenta todos os outros fatos que a envolvem, para retomar o tema anunciado muitos capítulos depois. 

Organizados em blocos curtos, os 160 capítulos de Memórias Póstumas de Brás Cubas fluem segundo o ritmo do pensamento do narrador. A aparente falta de coerência da narrativa, permeada por longas digressões, dissimula uma forte coerência interna, oferecendo ao leitor todas as informações para conhecer a visão de mundo de um homem que passou pela vida sem realização nenhuma, apenas ao sabor de seus desejos. 

Logo nas primeiras páginas, o escritor brinca com a expectativa do leitor de chegar logo às ações do romance. Machado de Assis, por intermédio do seu narrador, se dirige diretamente ao leitor, metalingüisticamente, para comentar o livro. Diz Brás Cubas:

“Veja o leitor a comparação que melhor lhe quadrar, veja-a e não esteja daí a torcer-me o nariz, só porque ainda não chegamos à parte narrativa destas memórias. Lá iremos. Creio que prefere a anedota à reflexão, como os outros leitores, seus confrades, e acho que faz muito bem”.

Personagens

Brás Cubas - narrador - morto aos 64 anos - “ainda próspero e rijo”, fidalgo. Peralta quando criança, mimado pelo pai, irresponsável quando adolescente, tornou-se um homem egoísta a ponto de discutir com a irmã pela prataria que fiou de herança do pai e tornar-se amante de seu amigo, Lobo Neves, se bem que nesse romance não se pode dizer propriamente que alguém é amigo de outro.

Virgília - filha do comendador Dutra, segundo o pai de Brás, Bento Cubas A “Ursa Maior” amante de Brás Cubas casa-se com Lobo Neves por interesse. Mulher bonita, ambiciosa, que parece gostar sinceramente de Brás Cubas, mas jamais se revela disposta a romper com sua posição social ou dispensar o conforto e o reconhecimento da sociedade. 

Damião Lobo Neves 
- casado com Virgília, homem frio e calculista. Marido de Virgília, homem sério, integrado ao sistema, ambicioso, mas muito mais supersticioso, pois recusou nomeação pra presidente de uma província só porque a referida nomeação aconteceu num dia 13.

Quincas Borba - menino terrível que dava tombos no paciente professor Barata, colega de escola de Brás que o encontrará mais tarde mendigo que rouba-lhe um relógio mas retorna-o ao colega após receber uma herança. amigo de infância do protagonista. Desde criança era de um temperamento ativo, exaltado, querendo ser sempre superior nas brincadeiras. Cubas diz que ele é impressionante quando brinca de imperador. Quando adulto, passa pelo estado de mendigo, evoluindo depois para filósofo e desenvolve um sistema filosófico, denominado Humanitismo, que pretende superar e suprimir todos os demais sistemas até tornar-se uma religião. 

Marcela - Segundo grande amor de Brás Cubas, uma prostituta de elite, cujo amor por Brás duraria quinze meses e onze contos de réis. Mulher sensual, mentirosa, amiga de rapazes e de dinheiro. Ganha muitas jóias do adolescente Brás Cubas. Contrai varíola e fica feia, com a pela grassa como uma lixa.

Sabina - irmã do narrador e que, como ele, valoriza mais o interesse pessoa e a posição social do que amizade ou laços de parentesco.

Cotrin - casado com Sabina, é interesse, traficante de escravos e cruel com eles, mandando-os castigar até correr sangue.

Eugênia - Filha de Eusébia e Vilaça, menina bela embora coxa. Era moça séria, tranqüila, dotada de olhos negros e olhar direito e franco. Tinha “idéias claras, maneiras chãs, certa graça natural, um ar de senhora, e não sei se alguma outra cousa; sim, a boca exatamente a boca da mãe".

Nhá Loló - moça simplória, tinha dotes de soprano - morre de febre amarela.

Cotrim - casado com Sabina, irmã de Brás; ambos interesseiros.

 Nhonhô - filho de Virgília.

 D. Plácida empregada de Virgília confidente e protetora de sua relação extra conjugal. 

Enredo

O romance é a autobiografia de Brás Cubas, narrador-personagem (1ª pessoa) que, depois de morto, na condição de "defunto-autor", resolve escrever suas memórias. Por estar morto, Brás Cubas assume uma posição transtemporal, de quem vê a própria existência já de fora dela, "desse outro lado do mistério", de modo onisciente, descontínuo e sem a pressa dos vivos.

O fato de Brás Cubas colocar-se como um "defunto-autor", isto é, como alguém que conta a sua vida de além-túmulo, dá-nos a impressão que se trata de um relato caracterizado pela isenção, pela imparciabilidade de quem já não tem necessidade de mentir, pois deixou o mundo e todas as suas ilusões. Essa é uma das famosas armadilhas machadeanas, contra a credulidade do leitor ingênuo e romântico de sua época.

Os fatos são narrados à medida que afloram à memória do narrador, que vai tecendo suas digressões, refletindo sobre seus atos, sobre as pessoas, exteriorizando uma visão cínica, irônica e desencantada de si mesmo e dos outros.

Espécie de anti-modelo, de personagem-símbolo da ironia machadeana quanto ao ideal burguês de "vencer na vida", a figura de Brás Cubas constitui uma inversão da travessia de heróis burgueses, tematizados pela literatura realista.

Machado de Assis ao escolher a situação fantástica de um morto que conta histórias, e que mesmo estando do outro lado da vida procura mais "parecer" do que "ser", isto é, na mente, ilude e distorce os fatos, escondendo suas misérias para que sejam vistas como superioridades, questiona tanto a forma quanto o conteúdo do realismo tradicional.

Brás Cubas conta a história de sua vida, a partir de sua morte. Seu ouvinte é o leitor virtual, cinco ou dez leitores, segundo acredita (cap. 34), Virgília, que espera venha a ler o livro (cap. 27), ou um cavalheiro (cap.87), narrador diferente da leitura romântica a quem o narrador das obras anteriores se dirige. 

Brás Cubas nasceu em 20/10/1805, no Rio de Janeiro, filho de Bento Cubas, da família burguesa que se enriqueceu com o comércio. Tinha uma única irmã, Sabina, casada com Cotrin, com quem teve uma filha, Venância. Seus tios eram João, oficial da infantaria, Ildefonso, padre , e Emerenciana, a maior autoridade de sua infância. Ao falecer, tinha 64 anos (...expirou às duas da tarde de uma Sexta-feira de agosto de 1869), era solteiro e seu enterro teve 11 pessoas. Sua morte foi assistida por 3 mulheres: a irmã Sabina, a sobrinha e Virgília, um de seus amores não concretizados. 

Nos nove primeiros capítulos, Brás Cubas descreve a sua morte (cap.1), o emplasto (uma idéia fixa que teve, ao final da vida, de inventar um “medicamento anti-hipocondríaco”, isto é, que curasse a mania de doença das pessoas), sua origem (cap.3), a idéia fixa do emplasto (cap.4), sua doença (cap.5), a visita de Virgília (cap.6), o delírio (pesadelo que teve antes de morrer em que lhe aparece Natureza ou Pandora, dona dos bens e dos males humanos, dentre os quais, o maior de todos é a esperança, cap.7), razão contra a sandice (em que a razão expulsa a sandice, cap.8) e transição (cap.9, em que o narrador faz uma reflexão metalingüística e retoma o fio narrativo, cronológico de sua vida, a partir de seu nascimento em 1805). A partir do cap.10, a vida de Brás Cubas é contada de forma sucessiva: nascimento, batizado, infância, juventude. 

Relata um episódio de 1814 quando, aos nove anos, delata uma cena de beijo entre Dr. Vilaça, “casado e pai” e D. Eusébia, uma “robusta donzela”. É aluno do mestre Ludgero Barata, “calado, obscuro, pontual” e colega de Quincas Borba, “uma flor”, o menino “mais gracioso, inventivo e travesso”. 

Em 1822, data da independência política do Brasil, torna-se o prisioneiro amoroso de Marcela, “amiga do dinheiro e de rapazes”, em quem dá o primeiro beijo e cuja paixão dura “quinze meses e onze contos de réis”. Obrigado pelo pai, vai para a Europa, estudar. Em Coimbra, torna-se bacharel, “mediocremente”. 

Na história de sua vida, são intercalados capítulos como O almocreve (cap.21) e A borboleta preta (cap.31), que são puramente filosóficos. 

Quando a mãe adoece, Brás Cubas volta ao Brasil, para velá-la, em seus últimos dias.

Tendo aprendido na universidade a ornamentação da História e da Jurisprudência, e não sua essência, passa a usá-la para viver na superficial sociedade em que vivia. Seu pai quer que se torne deputado e lhe arranja uma noiva, Virgília, filha do Conselheiro Dutra, 15 ou 16 anos, atraente e voluntariosa. No entanto, Brás Cubas vai visitar Eusébia, a mesma do episódio de 1814, que tinha uma filha de dezessete anos, Eugênia, “coxa de nascença”, uma “Vênus manca”. Brás Cubas a corteja, mas opta por Virgília, “uma jóia, uma flor, uma estrela, uma coisa rara”. Brás Cubas encontra Marcela, envelhecida, rosto marcado pelas “bexigas”, com um pequeno comércio na rua dos Ourives. Ao encontra-se com Virgília, tem uma alucinação e vê a namorada com o rosto marcado como o de Marcela, mas passa. 

Virgília, no entanto, ambiciosa, casa-se com Lobo Neves, um homem que lhe pareceu mais promissor que Brás Cubas. O pai de Cubas, desgostoso, morreu, inconformado. Brás Cubas, a irmã Sabina e o cunhado, Cotrin, disputaram a herança do pai e em tudo pode-se observar o interesse material determinando o comportamento das pessoas. Brás Cubas torna-se recluso, escrevendo política e fazendo literatura, chegando a alcançar reputação de polemista e poeta. 

Luis Dutra, um primo poeta de Virgília, avisa Brás Cubas de que Virgília e Lobo Neves tinham regressado de São Paulo. Brás Cubas começa a freqüentar a casa deles e torna-se amante de Virgília. À mesma época, encontra, na rua, o Quincas Borba, seu colega de infância, que vivia como mendigo. Ajuda-o com cinco mil réis e este lhe rouba o relógio, ao despedir-se. 

Quando algumas pessoas começam a desconfiar do relacionamento de Brás Cubas e Virgília, estes montam uma casinha, no recanto de Gamboa, cuja caseira era D. Plácida, uma antiga agregada da casa de Virgília. 

Lobo Neves, marido de Virgília aguarda sua nomeação para presidente da província e convida Brás Cubas para ser seu secretário. Este reluta em aceitar. 

Virgília tem um filho, Nhonhô, do marido, mas Cubas sonha ter um filho com ela. 

Brás Cubas recebe uma carta de Quincas Borba que lhe devolve o relógio roubado e quer lhe expor sua teoria filosófica do Humanitismo, o princípio das coisas. 

Lobo Neves recebe denúncias da traição da mulher. E nomeado Presidente da Província e o casal parte, terminando aí o romance proibido entre Virgília e Brás Cubas. 

Quincas Borba visita Brás Cubas, conta-lhe da fortuna herdada de um tio de Barcelona, mas só se ocupa de sua doutrina filosófica, o humanitismo, uma paródia das teorias científicas no final do século XIX. Brás Cubas fica seduzido pela teoria do Humanitismo, identificando-se com sua explicação materialista da existência humana. 

Outros motivos que lhe compensaram a perda de Virgília foram a tentativa da irmã de casá-lo com Nha Loló e a ambição política. Aquela no entanto, morre, aos 19 anos de febre amarela. Brás Cubas torna-se deputado, atuando ao lado de Lobo Neves. Em 1855, Brás Cubas encontra Virgília, num baile. Ele a acha magnífica, mas nada mais ocorre entre eles. 

Ao chegar ao 50 anos, Brás Cubas perde o interesse pela vida, que é o amor. Quincas Borba o convence de que era a idade da ciência e do governo, mas Brás Cubas perde sua cadeira de deputado e, conseqüentemente, a paixão pelo poder. Sua única companhia é Quincas Borba, com quem filosofa sobre a vida e a existência humana através de observações da realidade, como uma luta de cães por um osso. 

Brás Cubas recebe um bilhete de Virgília que pede-lhe para socorrer D. Plácida, que está a morrer. Ele dá-lhe algum dinheiro e a interna na Misericórdia, onde falece. 

Resolve publicar um jornal, de oposição ao governo, que contraria Cotrin, seu cunhado. Pouco mais de seis meses depois, o jornal deixa de sair. 

Lobo Neves morre, na iminência de ser ministro. Brás Cubas vai-lhe ao enterro e vê que Virgília chorava “lágrimas verdadeiras”. 

Brás Cubas reconcilia-se com o cunhado Cotrin, ingressa na ordem, para dar alguma utilidade a sua vida, segundo ele, foi a fase mais brilhante de sua vida. No hospital da ordem, viu morrer a ex-namorada, a linda Marcela, agora feia, magra, decrépita; também encontrou, num cortiço, outra ex, Eugênia, a filha de D. Eusébia e do Vilaça, tão coxa como antes e mais triste. 

Quincas Borba, que havia partido para Barcelona, volta, mais louco ainda, morrendo pouco tempo depois. O último capítulo, Das negativas, finaliza a obra com o tom cético e realista que atravessa toda a obra: Brás Cubas não se torna famoso por seu emplasmo, não foi ministro, nem califa, nem se casou. Em compensação, não comprou o pão com o suor do rosto, pois nunca teve de trabalhar. Não morreu como D. Plácida, Marcela, Eugênia e tantos outros, nem se tornou louco como Quincas Borba. Ao morrer, chega ao outro lado, sentindo-se um pouco credor, pois não teve filhos e portanto, não transmitiu “a nenhuma criatura o legado de sua miséria”.

Machado de Assis



Joaquim Maria Machado de Assis (Rio de Janeiro21 de junho de 1839 — Rio de Janeiro, 29 de setembro de1908) foi um escritor brasileiro, amplamente considerado como o maior nome da literatura nacional. Escreveu em praticamente todos os gêneros literários, sendo poeta, romancista, cronista, dramaturgo, contista, folhetinista, jornalista, e crítico literário. Testemunhou a mudança política no país quando a República substituiu o Império e foi um grande comentador e relator dos eventos político-sociais de sua época.
Nascido no Morro do LivramentoRio de Janeiro, de uma família pobre, mal estudou em escolas públicas e nunca frequentou universidade. Os biógrafos notam que, interessado pela boémia e pela corte, lutou para subir socialmente abastecendo-se de superioridade intelectual. Para isso, assumiu diversos cargos públicos, passando pelo Ministério da Agricultura, do Comércio e das Obras Públicas, e conseguindo precoce notoriedade em jornais onde publicava suas primeiras poesias e crônicas. Em sua maturidade, reunido a colegas próximos, fundou e foi o primeiro presidente unânime da Academia Brasileira de Letras.
Sua extensa obra constitui-se de 9 romances e peças teatrais, 200 contos, 5 coletâneas de poemas e sonetos, e mais de 600 crónicas. Machado de Assis é considerado o introdutor do Realismo no Brasil, com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881). Este romance é posto ao lado de todas suas produções posteriores, Quincas BorbaDom CasmurroEsaú e Jacó e Memorial de Aires, ortodoxamente conhecidas como pertencentes a sua segunda fase, em que se notam traços de pessimismo e ironia, embora não haja rompimento de resíduos românticos. Dessa fase, os críticos destacam que suas melhores obras são as da Trilogia Realista. Sua primeira fase literária é constituída de obras como RessurreiçãoA Mão e a LuvaHelena e Iaiá Garcia, onde notam-se características herdadas do Romantismo, ou "convencionalismo", como prefere a crítica moderna.
Sua obra foi de fundamental importância para as escolas literárias brasileiras do século XIX e do século XX e surge nos dias de hoje como de grande interesse acadêmico e público. Influenciou grandes nomes das letras, como Olavo BilacLima BarretoDrummond de AndradeJohn BarthDonald Barthelme e outros. Em seu tempo de vida, alcançou relativa fama e prestígio pelo Brasil, contudo não desfrutou de popularidade exterior na época. Hoje em dia, por sua inovação e audácia em temas precoces, é frequentemente visto como o escritor brasileiro de produção sem precedentes, de modo que, recentemente, seu nome e sua obra têm alcançado diversos críticos, estudiosos e admiradores do mundo inteiro. Machado de Assis é considerado um dos grandes gênios da história da literatura, ao lado de autores como DanteShakespeare e Camões.

"Contos Exemplares" de Sophia de Mello Breyner Andresen



Antologia de contos de Sophia de Mello Breyner Andresen publicada em 1962.
O livro inicia-se com uma citação do Prólogo das Novelas Ejemplares (1613) de Cervantes, através da qual é salientada a virtualidade didática de cada um dos textos da obra do escritor espanhol e, correlativamente, da obra em causa de Sophia.
O paralelo de tal obra de Cervantes com os textos desta autora poderá não ser óbvio à primeira vista, sobretudo se pensarmos que os seus «exemplos» se apoiam numa sabedoria popular e humorística mais próxima do picaresco do que da moralidade tal como ela é tradicionalmente entendida. Recordemos, porém, que uma das características subversivas do popular e do humorístico se relaciona com a questionação da teia de relações convencionais que constituem o «eu» e o mundo. O didatismo «exemplar» tanto dos textos de Cervantes como daqueles de Sophia assenta justamente nesse mecanismo.
Em Os Três Reis do Oriente, não por acaso o último conto da antologia, deparamos com três personagens - Gaspar, Melchior e Baltasar - a quem os pontos de vista convencionais não satisfazem. O primeiro não aceita como deus um ídolo de ouro «compacto, duro, pesado» que renega os pobres, os envergonhados e os humildes. O segundo recusa o niilismo dos sofismas, aporias e ateísmos da ciência e da filosofia. O terceiro problematiza os valores na base da sua riqueza e do seu poder. Os três partem em busca de uma crença válida capaz de fornecer uma resposta, crença corporizada polissemicamente pelo topos da estrela: «sobre o mundo do sono, sobre a sombra intrincada dos sonhos onde os homens se perdiam tateando, como num labirinto espesso, húmido e movediço, a estrela acendia, jovem, trémula e deslumbrada, a sua alegria».
Esta atitude nómada, uma das características do romance picaresco, recusando o peso dos valores tradicionais, relaciona-se com a noção de que a vida é ela própria uma viagem com um percurso desconhecido. Em A Viagem, os protagonistas (um casal), que simbolicamente se perdem de um destino que haviam rigorosamente delineado à partida, vão adquirindo gradualmente a noção da efemeridade das coisas e, correlativamente, da necessidade da fruição dos frutos do presente, sobretudo dos mais inesperados, dos que vêm em vez daqueles inicialmente planeados. A ambição de recuperar o caminho inicial implica que eles ignorem as virtudes do caminho que vão trilhando: abrigo, alimentos, água fresca, etc., que vão desaparecendo e não são encontradas quando eles voltam atrás. Esta caminhada acaba por conduzi-los a um abismo que engole a personagem masculina e cerca de escuridão a personagem feminina, a qual, nestas circunstâncias desanimadoras, descobre afinal em si a fé na validade de um chamamento.
A dimensão da esperança na possibilidade de uma resposta contida no infinito silêncio (de Deus?) é, nos dois contos supracitados, atingida através da aprendizagem da redução, do despojamento e da leveza, características opostas àquelas de personagens extremamente negativas como Mónica, em Retrato de Mónica, cujo sucesso social assenta na renúncia «à poesia, ao amor e à santidade» e numa relação de proximidade com o chamado «Príncipe deste Mundo». Esta personagem tem um estatuto muito semelhante àquele de o «Dono da Casa» de O Jantar do Bispo, que, com a ajuda do «Homem Importantíssimo» e um cheque destinado ao restauro do teto de uma igreja, tenta aliciar o bispo que convida para jantar a transferir o pároco da freguesia onde vivem os seus assalariados, pois este o acusa justamente da miséria deles, assim ameaçando a sua opulência capitalista.
O carácter alegórico de algumas das personagens referidas é desde logo indiciado pela sua nomeação. De resto, há afinidades profundas entre personagens como «o Príncipe deste Mundo» e o «Homem Importantíssimo», ambos perspetivados de forma extremamente negativa pelo narrador, assim como há uma grande proximidade entre uma personagem como o pobre que visita a casa onde decorre o Jantar do Bispo e aquele, em O Homem, em cujo olhar ecoa a pergunta de Jesus Cristo («Pai, pai, porque me abandonaste?»).
No capítulo que dedica à «Leveza» em Seis Propostas para o Próximo Milénio, Italo Calvino defende um conhecimento emergente da «dissolução da compactidade do mundo» e da perceção da multiplicidade dos corpúsculos invisíveis, móveis e leves de que é composta a matéria. A poética dos já referidos despojamento, redução e leveza de Sophia parece identificar-se com esse postulado.
O impulso alegórico que alimenta estes contos é uma das consequências da abstração que tal perspetiva implica. Contudo, é a nível verbal que esta se materializa desde o início. O estilo destes contos, tal como aquele dos discursos que o vagabundo de Homero enuncia na praia, cresce de «Palavras brilhantes como as escamas de um peixe, palavras grandes e desertas como praias» que «reuniam os restos dispersos da alegria da terra».
No entanto, como lembra Calvino, a «leveza» não implica uma fuga ao real mas antes uma maior precisão do discurso para atingir a substância última da sua multiplicidade. É assim que, num conto como Praia, é a partir de um cenário marítimo, noturno e nebuloso, onde se desenrola uma vaga reunião social, que surge uma concreta telefonia com notícias da Segunda Guerra e a noção de uma humanidade como parte essencial de um cenário onde reinam «as sombras e a doçura das areias, o brilho lucidíssimo das estrelas, o mistério, a presença suspensa do inimigo invisível, a orla da morte, o terror, a paixão e o denso, agudo e exato peso de cada momento.».

Sophia de Mello Breyner Andresen



Sofia de Melo Breyner Andresen (Porto6 de Novembro de 1919 — Lisboa2 de Julho de 2004) foi uma das mais importantes poetisas portuguesas do século XX. Foi a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa, o Prémio Camões, em 1999.



Tem origem dinamarquesa pelo lado paterno. O seu bisavô, Jan Heinrich Andresen, desembarcou um dia no Porto e nunca mais abandonou esta região, tendo o seu filho João Henrique comprado, em 1895, a Quinta do Campo Alegre, hoje Jardim Botânico do Porto. Como afirmou em entrevista, em 1993,[2] essa quinta "foi um território fabuloso com uma grande e rica família servida por uma criadagem numerosa". A mãe, Maria Amélia de Mello Breyner, é filha do conde de Mafra, médico e amigo do rei D.Carlos. Maria Amélia é também neta do conde Henrique de Burnay, um dos homens mais ricos do seu tempo.

Criada na velha aristocracia portuense, educada nos valores tradicionais da moral cristã, foi dirigente de movimentos universitários católicos quando frequentavaFilologia Clássica na Universidade de Lisboa (1936-39).[3] Colaborou na revista Cadernos de Poesia, onde fez amizades com autores influentes e reconhecidos: Rui Cinatti e Jorge de Sena.[3] Veio a tornar-se uma das figuras mais representativas de uma atitude política liberal, apoiando o movimento monárquico e denunciando o regime salazarista e os seus seguidores. Ficou célebre como canção de intervenção dos Católicos Progressistas a sua "Cantata da Paz", também conhecida e chamada pelo seu refrão: "Vemos, Ouvimos e Lemos. Não podemos ignorar!" Casou-se, em 1946, com o jornalista, político e advogado Francisco Sousa Tavares[3] e foi mãe de cinco filhos: uma professora universitária de Letras, um jornalista e escritor de renome (Miguel Sousa Tavares), um pintor e ceramista e mais uma filha que é terapeuta ocupacional e herdou o nome da mãe. Os filhos motivaram-na a escrever contos infantis.
Em 1964 recebeu o Grande Prémio de Poesia pela Sociedade Portuguesa de Escritores pelo seu livro Livro sexto. Já depois do Revolução dos Cravos (25 de Abril), foi eleita para a Assembleia Constituinte, em 1975, pelo círculo do Porto numa lista do Partido Socialista, enquanto o seu marido navegava rumo ao Partido Social Democrata.
Distinguiu-se também como contista (Contos Exemplares) e autora de livros infantis (A Menina do MarO Cavaleiro da DinamarcaA FlorestaO Rapaz de BronzeA Fada Oriana, etc.). Foi também tradutora de Dante Alighieri e de Shakespeare e membro da Academia das Ciências de Lisboa. Para além do Prémio Camões, foi também distinguida com o Prémio Rainha Sofia, em 2003.
Sophia de Melo Breyner faleceu, aos 84 anos, no dia 2 de Julho de 2004 no Hospital da Cruz Vermelha.
Desde 2005, no Oceanário de Lisboa, os seus poemas com ligação forte ao Mar foram colocados para leitura permanente nas zonas de descanso da exposição, permitindo aos visitantes absorverem a força da sua escrita enquanto estão imersos numa visão de fundo do mar.




quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Miles Davis



Biografia

O que é ser “cool”? Na sua essência, ser “cool” tem a ver com as novas tendências. Na cultura popular as novas tendências é um caleidoscópio que contém o passado, o presente e o futuro: Este caleidoscópio é feito do que foi “cool” no passado, e o que pode ser “cool” no futuro. Esta qualidade intemporal, quando aplicada ao mundo da música, reduz-se a um pequeno número de figuras que tendo sido “cool”, serão “cool” para sempre.
Durante cerca de seis décadas, Miles Davis personificou tudo o que significa ser “cool” – na sua música (e mais especialmente no seu jazz), na sua arte, moda, romance e na presença internacional que se faz sentir ainda hoje. 2006 – O ano em que Miles Davis entrou para o Rock and Roll Hall of Fame é um ano marcante, que celebra os 80 anos do seu nascimento a 26 de Maio de 1926, e o décimo quinto aniversário da sua morte a 28 de Setembro de 1991. Entre essas duas datas existe mais de meio século de brilhantismo, integridade artística e inovação que transcendem a figura do homem.
Construindo um caminho que sempre pareceu ter algo de missão, Miles Dewey Davis III- músico, compositor, produtor e “band leader”- esteve sempre no local certo, no tempo certo, outro dos aspectos distintivos de “cool”. Nascido em Alton, Illinois, e crescendo em no Este de St. Louis, onde o seu pai era dentista, MIles recebeu a sua primeira trompete aos 13 anos.
Miles Davis foi uma criança prodígio, cuja mestria da trompete se acelerou quando começou a ficar sob o feitiço de nomes como Clark Terry, Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Billy Eckstine, e outros grandes homens de jazz que o influenciaram. Miles entrou na escola Juiliard em 1944, mas apenas como uma desculpa para ir para Nova Iorque e poder chegar perto de Bird e Diz. Aos 18 anos.
Em apenas um ano conseguiu o seu objectivo. Pode ser ouvido em sessões conduzidas por Charlie Parker, lançadas em 1945 (com Max Roach), 1946 (com Bud Powell), 1947 (com Duke Jordan e J.J. Johnson) e 1948 (com John Lewis). Em 1947, os Miles Davis All Stars (com Bird, Roach, Lewis e Nelson Boyd) estreiam-se na Savoy Records. Os seus anos na Rua 52, durante a segunda parte dos anos 40 trouxeram Miles para a orbita de músicos cujas lendas, ele partilharia antes de ter 25 anos.
No virar da década de 50, enquanto Miles liderava as suas primeira pequenas bandas, uma associação com Gerry Mulligan e o produtor Gil Evans, fez nascer The Birth of Cool, um movimento que desafiava o domínio do bebop e do hard-bop. Os próximos trabalhos de Miles no inicio dos anos 50 (Blue Note e Prestige) ajudaram a lançar músicos como Sonny Rollins, Jackie McLean, Horace Silver e Percy Heath, entre muitos outros, fazendo de Miles o grande descobridor de talento no Jazz durante o resto da sua carreira.
Um passo histórico foi dado no Newport Jazz Festival em 1955, quando George Avakian levou Miles Davis para a Columbia Records, o que levou à formação do chamado “ primeiro grande quinteto”, com John Coltrane, Red Garland, Paul Chambers e Philly Joe Jones (em Round About Midnight Sessions). Os 30 anos de carreira de Miles na Columbia foram um dos mais longos contratos de exclusividade na história do Jazz, e que gerou, pelo menos, seis grandes mudanças na música – Virtualmente todas antecipadas ou lideradas por Miles Davis ou pelos seus músicos.
Durante esses 30 anos, trabalhar com Miles Davis definiu “quem é quem” na história do jazz. Kind of Blue, indisputadamente o álbum de jazz mais “cool” alguma vez gravado, foi feito em 1959 com a participação de Coltrane, Chambers, Cannonball Adderley, BIll Evans e Jimmy Cobb – que permaneceram juntos até 1961.
Depois de tocar com músicos como Hank Mobley, Wynton Kelly, Victor Feldman e George Coleman, o “segundo grande quinteto”, formou-se por volta de 1963 e 1964, incluindo Wayne Shorter, Herbie Hancock, Ron Cárter e Tony Williams ( que tinha apenas 17 anos quando se juntou a Miles). Gravaram com o produtor Teo Macero e andaram em tour por todo o mundo até 1968, conseguindo sucesso artístico e comercial sem precedentes na história do Jazz moderno.
1968 foi um ano de cataclismos sociais para os Estados Unidos e para Miles Davis, o escalar da guerra no sudeste Asiático, o assassinato de Martin Luther King e Robert Kennedy e a subida de influência do movimento Black Power, foram alguns dos factores que direccionaram a musica de Miles para um som mais eléctrico. Miles começava a ser influenciado também pela musica de James Brown, Jimmy Hendrix e Sly Stone. O que começou em 1968 com a adaptação do quinteto de Miles Davis a adoptar o piano e guitarra eléctricos, explodiu num som de banda Rock no álbum de ruptura Bitches Brew ( que levou Miles à capa da Rolling Stone. Foi o primeiro “jazzmen” a fazer capa desta revista).
Nas sessões de Bitches Brew, cujas gravações tiveram lugar uma semana após o festival de Woodstock em Agosto de 1969, estava um grupo de músicos conhecidos como “o terceiro grande quinteto” – Shorter, Chick Corea, Dave Holland, Jack deJohnette – havendo também as participações de John McLaughlin, Larry Young, Joe Zawinul, Bennie Maupin, Steve Grossman, Billy Cobham, Lenny White, Don Alias, Airto Moreira, Harvey Brooks e os ex-membros do quinteto,Hancock e Carter.
Seis meses mais tarde, em Fevereiro de 1970, Miles começou com as Jack Johnson sessions. Trabalhando com os músicos referidos anteriormente e ainda com Sonny Sharrock, Steve Grossman, Michael Henderson, Keith Jarret e outros. O movimento de fusão entre o Jazz e o Rock estava lançado sem margem para dúvidas, e o espírito de Miles Davis permeava as três bandas que dominavam os palcos – Weather Report, Return to Forever e The Mahavishnu Orchestra.
Este novo som, de alta energia que se estendia ao Funk e R&B, teve uma breve baixa de popularidade que coincidiu com um período de problemas de saúde no inicio dos anos 70. Miles, deu o seu ultimo concerto em 1975 no Central Park Music Festival nesse Verão.
Miles reapareceu mais forte que nunca em 1981 com The Man With The Horn, com um alinhamento de jovens músicos: Mike Stern, Marcus Miller, Bill Evans, Al Foster e Mino Cinelu (Todos viriam a ter carreiras de sucesso). Foi o primeiro LP de Miles a chegar ao Billboard Top 50 desde Bitches Brew, e a banda foi gravada ao vivo para o seguinte LP Duplo We Want Miles. O grupo manteve-se estável até Star People em 1983. Depois a composição mudou no álbum Decoy de 1984, quando Miller foi substituído por Daryll “Munch” Jones, Robert Irving III acrescentou sintetizadores e programação, e Branford Marsalis partilhou o saxofone com Evans.
O último álbum de Miles Davis para a Columbia Records saiu em 1985 com o título You’re Under Arrest. Apresentou ao mundo o sobrinho de Miles Vince Wilburn que se juntou ao grupo de músicos que gravitavam em redor de Miles. Neste álbum estão duas baladas que marcarão a carreira de Miles Davis: “Human Nature” de Michael Jackson e “Time after Time “ de Cindy Lauper.
No ano seguinte, Miles começou a gravar para a Warner Bros., um período prolífico, pontuado por um álbum por ano ( os primeiros 4 co-produzidos com Marcus Miller): Tutu (1986) , Music from Siesta ( 1987), Live Arround The World ( 1988), Amandla (1989), Dingo(1990), e o seu ultimo álbum de originais, Doo-Bop (1991) , cujo tema de titulo deu a Miles um sucesso póstumo como single de Rap/R&B em 1992.
“Miles Dewey Davis III – trompetista, visionário e eterno modernista – foi uma força da natureza” escreveu Ashley Khan ( autor de Kind of Blue: the Making of Miles Davis masterpiece, DaCapo, 2000) no jantar do Rock and Rolll Hall of Fame. “Com um ouvido que não conhece categorias de estilo, ele procurou novos universos musicais, e levou gerações na sua pegada. Enquanto a centelha criativa de muitos músicos se esgota na sua juventude, Miles Davis teve sempre desejo de explorar novos limites nos seus 65 anos de carreira. Tinha de ser novo, ou esquecer”.
Para lá da sua postura de desafio, do seu olhar penetrante, das suas conquistas amorosas e de uma posição de vanguarda no mundo da moda – haverá sempre uma verdade universal – A musica de Miles Davis.