quinta-feira, 22 de setembro de 2011

"Viver no fim dos tempos" de Slavoj zizek




O vigésimo aniversário da queda do Muro de Berlim deveria ter sido para nós um momento de reflexão. Tornou-se um cliché sublinhar a natureza “miraculosa” da queda do Muro: como um sonho que se tornasse realidade. Com a desintegração dos regimes comunistas, que ruíram como um castelo de cartas, qualquer coisa de inimaginável acontecia, qualquer coisa que ninguém poucos meses antes teria considerado possível. Quem, na Polónia, poderia ter imaginado a realização de eleições livres ou a presidência de Lechn Walesa? No entanto, devemos ter presente que um “milagre” ainda maior ocorreria alguns breves anos mais tarde: ou seja, o regresso ao poder dos ex-comunistas
através de eleições livres e democráticas, e a marginalização total de Walesa que se tornara ainda mais impopular do que o homem que, uma década e meia antes, tentara esmagar Solidarnosc por meio de um golpe de Estado - o general Wojciech Jaruzelski.
A explicação corrente desta última reviravolta evoca as expectativas utópicas “imaturas” da maioria, cujos desejos são tidos por contraditórios, ou, melhor, inconsistentes. O povo queria comer o bolo e ficar com ele: queria a liberdade capitalista-democrática e a abundância material, mas sem pagar todo o preço de viver numa “sociedade de risco” - ou seja, sem perder a segurança e a estabilidade outrora (mais ou menos) garantidas pelos regimes comunistas. Como alguns sarcásticos observadores ocidentais previsivelmente fariam notar, a nobre luta pela liberdade e pela justiça levara a pouco mais do que a uma corrida às bananas e à pornografia.
Quando o inevitável sentimento de frustração se manifestou, deu origem a três reacções (por vezes opostas, por vezes sobrepostas): 1) a nostalgia pela “velha e boa” época comunista1; 2) o populismo nacionalista de direita; 3) uma paranóia anticomunista renovada e diferida. As duas primeiras reacções compreendem-se facilmente. A nostalgia comunista, em particular, não deve ser levada demasiado a sério: longe de exprimir um autêntico desejo de regresso à realidade cinzenta do regime anterior, aproxima-se mais de uma forma de luto - um processo de abandonar suavemente o passado. A ascensão do populismo de direita, pelo seu lado, não é uma especialidade europeia oriental, mas um traço comum a todos os países apanhados pelo sorvedouro da globalização. Mais interessante é, portanto, a terceira reacção, a ressurreição insólita de uma paranóia anticomunista ao fim de duas décadas. A pergunta – “Se o capitalismo é, de facto, tão superior ao socialismo, porque
continuam as nossas vidas a ser tão miseráveis?” – fornece uma resposta simples: é porque, de facto, não chegámos ainda ao capitalismo, é porque os comunistas continuam, de facto, a governar, só que usando agora as novas máscaras de proprietários e de gestores…
É um facto evidente que, entre os que protestavam contra os regimes comunistas da Europa de Leste, a grande maioria não estava a reivindicar uma sociedade capitalista. Queriam segurança social, solidariedade, uma certa forma de justiça; queriam a liberdade de viverem as suas próprias vidas fora da vigilância do controle do Estado, a liberdade de se poderem reunir e falar como bem entendessem; queriam uma existência livre de uma doutrinação ideológica primitiva e da hipocrisia cínica prevalecente. Como numerosos analistas perspicazes observaram, os ideais que inspiravam os contestatários eram em larga medida extraídos da própria ideologia socialista dominante: aquilo a que aspiravam poderia receber justificadamente o nome de “socialismode rosto humano”.

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